por H. Thiesen
Para uma mulher sair “sozinha” é uma epopeia. Em pleno século XXI, basta irmos a uma balada, que o retrocesso é evidente, retornamos ao machismo de outrora.
Numa balada, a lógica que impera, com os devidos significados, observações e sensibilidade masculina, é a do “sozinha ou acompanhada”.
O significado de "mulher sozinha” é “sem homem”. Ou seja, mulher não tem o direito de ficar sem um. Aliás, na prerrogativa imperante masculina, toda mulher quer estar com um homem, ou no mínimo está ansiosa pela companhia de um macho. A bem da verdade, para os baladeiros de plantão (diga-se garanhões de plantão), se mulher está sozinha, com certeza está à procura de um homem, por mais que mostre desinteresse por eles, está se fazendo de difícil ou fingindo que está bem, tentando enganar-se, mas de qualquer forma, querendo muito e com urgência, uma companhia dotado de badalos no meio das pernas.
- Oi!- Oi!- Tudo bem
- Tudo bem!
- Você está sozinha?
- Não, estou com amigas!
- Ah! Então não está acompanhada?
- Não falei que estou com as amigas?
- (Risos) Não, não... Eu quis dizer namorado?
- Não, não tenho namorado!
- Prazer... Carlos Augusto!
Homem não tem jeito, se ela não tem namorado é sinal aberto para ele se atirar de cabeça. Na cabeça masculina, ela não tem direito de querer ou não querer, o que existe de fato é o estar sozinha ou acompanhada e se está sozinha, está louca por um macho.
- Oi, como vai?
- Bem!
- Posso saber seu nome?
- Pode, mas não estou muito a fim de papo!
- Falo sério!
- ( Sorriso amarelo)!!!
- Por que? Você está acompanhada?
- Não!
- Posso te fazer companhia?
- Cara, eu só estou dançando, me divertindo!
Sozinha ou acompanhada, na balada tudo se resume a isso! Será que em sã consciência, uma pessoa não pode se divertir, dançar e ouvir música do jeito que ela quer, sem ser importunada?
Mas não ficamos só nisso, tem os insistentes e inconformados, caso clássico e corriqueiro:
- Olá, qual o seu nome?
- Sandra?
- Prazer, Elton!
- É...
- Podemos conversar...
- Já não estamos conversando?
- Claro... Isto é... sim, mas eu queria te fazer uma pergunta!
- Ok, pergunte!
- O que você acha de ficarmos junto?
- Olha... na verdade não estou a fim!
- Por que? Você tem namorado?
- Você perguntou se eu queria ficar com você?
- Sei... Como uma mulher tão bonita pode ficar sozinha assim?
- Como falei, não estou a fim! Simples assim!
- E o que você vai fazer sozinha a noite toda?
- Ora, o que eu estava antes de você chegar: Me divertindo com os amigos!
- Pensa bem, comigo você vai se divertir muito mais!
- Bem... Eu fui bastante clara, ou quer que eu desenhe?
- Calma!
- Com licença!
- Espera, desculpe!
- Não tem que se desculpar!
- Fui rápido demais, né?! Vamos mais devagar, conversamos mais um pouco, sem pressa, o que você acha?
- Com licença!
- Oh gata, não te faz de difícil!
Não entendo, quem disse aos homens que, quando as mulheres dizem “não”, elas estão se fazendo de difíceis? Será possível que a palavra "não" tem outro significado na lingua deles?
Porém, para mim o mais detestável e que não passa na minha garganta é o punheteiro, que está sempre pronto com o pau na mão e com cara de tarado.
- Oi, podemos conversar?
- Não!
- Por que?
- Por que não!
- Está acompanhada?
- Estou com a minha namorada! Oi amor!
- Interessante, gostei disso! (Com os olhos brilhando, um sorrisinho safado e o pensamento estampado na cara: - Duas lésbicas lindas, é hora do show! Hoje eu me dou bem! Tesudas)
Mulher sozinha na balada (diga-se: sem macho do lado), sofre!
Esse teu texto (uma crônica a dinâmica nos urbanos habitats noturnos), é agradável de ser lido por mostrar o quanto nós, homens, não distinguimos (na maioria das vezes), uma mulher sofisticada de uma "perigueti", no sentido lato da palavra (não sei de esta expressão está "démodé", provavelmente menos que esta última). Mas em qualquer geração, esse "approach" do macho em relação a "fêmea só e desprotegida", sempre será carregado de rica vivência a ser transformado em crônicas tão contemporâneas como esta.
ResponderExcluirFico muito chateado de a minha condição, como homem, é, por si só, opressora.
ResponderExcluirE também me entristece que o ambiente de muitas baladas ser tão misógino.
Estou adorando seus textos!!!